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Por que o design parou de sonhar grande, segundo Speculative Everything

21 de agosto de 2026Por Menina de UX

Qual foi a última vez que a gente imaginou um futuro empolgante, em vez de só torcer para as coisas não piorarem?

Foto: capa de Speculative Everything (via artigo de Monalisa Marques / UX Collective Brasil)

Qual foi a última vez que a gente imaginou um futuro empolgante, em vez de só torcer para as coisas não piorarem?

Essa provocação abre o artigo de Monalisa Marques no UX Collective Brasil (abre em nova aba), publicado em 27 de julho de 2026. É o primeiro texto de uma série sobre Speculative Everything, de Anthony Dunne e Fiona Raby.

Curadoria em português a partir do original. Vale ler o artigo completo.

O diagnóstico que incomoda

Marques conta que esperava um livro de metodologia. No primeiro capítulo, encontrou outra coisa: a ideia de que nossos sonhos deixaram de ser sonhos e viraram só esperanças.

No texto dela, sonho é ativo (“vamos construir esse futuro”). Esperança é passiva (“tomara que a gente sobreviva”). Dunne e Raby argumentam que as grandes visões sumiram e sobrou o “tomara”. A citação que ela destaca: hoje é mais fácil imaginar o fim do mundo do que uma alternativa ao capitalismo, embora alternativas sejam exatamente o que precisamos.

Para quem trabalha com design ou produto, a ponte é direta. A área que a gente adora definir como “resolução de problemas” foi uma das que mais sentiu essa atrofia da imaginação. E talvez nem tenha percebido.

Quatro razões (pelo livro, via Marques)

O artigo recupera por que provocação radical ficou rara no design contemporâneo:

  1. Design virou vitrine. Nos anos 1980, o mercado absorveu o campo com tanta força que papéis alternativos passaram a parecer economicamente inviáveis
  2. Fim das alternativas. Depois de 1989, a sensação de um único modelo possível esvaziou a fantasia política
  3. Sociedade atomizada. Com Bauman e a modernidade líquida: sonho coletivo precisa de coletivo, e o coletivo se dissolveu. O contraponto dos autores: no lugar de uma mega-utopia, podem existir milhões de pequenas utopias individuais
  4. Sonhos do século XX insustentáveis. População, recursos finitos e clima. O consumismo dos anos 1950 não cabe no planeta

O que muda na segunda a sexta

Na prática de produto digital, Marques vê a atrofia no dia a dia: a gente projeta para o cenário mais provável, a persona média, o caso de uso principal, o roadmap do trimestre.

O discovery, no padrão que ela escuta em várias empresas, descobre o que as pessoas precisam hoje. Quase nunca sobra tempo para especular como o contexto pode mudar. Quando o mundo muda de verdade (pandemia, lei de dados, tecnologia nova), o produto descobre que só sabia funcionar no mundo de ontem.

Dunne e Raby, no recorte do artigo, provocam: alguns desafios de hoje não se resolvem só quebrando e quantificando problema. Pedem mudança de valores e comportamento. O design ficou ótimo em responder perguntas e enferrujou em perguntar.

A boa notícia anunciada: os autores propõem o framework PPPP (futuros prováveis, plausíveis, possíveis e preferíveis). Marques deixa esse mapa para o próximo texto da série.

A pergunta que ela deixa no ar: no seu time, existe ritual para imaginar futuros diferentes do provável, ou toda a energia vai otimizar o cenário que já existe?

Por que a gente recomenda

É conteúdo evergreen para carreira em UX. Em meio a pressão por entrega e IA, o texto devolve espaço para especulação sem abandonar o chão do produto. Combina bem com conversas de resiliência, discovery e design crítico.

Fontes